quarta-feira, 31 de março de 2010

A palavra...(



Uma palavra devolve-me o tempo exacto.
Nela me instalo.
E sou feliz ou infeliz.
Mas à minha maneira.
Posso tapar os olhos para a não ver, os ouvidos para não ouvi-la; cerrar a boca para não pronunciá-la.
Não adianta.
A palavra irrompe.
A palavra irromperá quer queiramos ou não.
Porque a palavra é um símbolo.
Com ela se desenham a liberdade e as algemas; com ela se estabelece a guerra e inaugura a paz.
A palavra é suavidade, loucura, são folhas e folhas esboçando um tempo a vir.
É uma janela aberta, uma lágrima incontida.
Partem velozes as palavras, quando se libertam.
Crescem como sons e repercutem-se quando encontram o campo desejado.
A palavra é uma alta cidade que nasce às cegas, sobressaltada ou intolerante.
Ou intolerável.
Peça de um maravilhoso ofício, pode ser um grito doloroso, uma estrela desintegrada, um punhal acerado.
A palavra fere, humilha, repõe, exalta, congrega, unifica, destrói.
Nela respiramos e dela se alimentam os seres mais tristes ou os mais perturbados.
Ela é, para o oficinal trabalho do poeta, o infinito para que convergem os seus dias.
Quando o impedem de procurá-la matam-no em silêncio.
Quase sem se reparar.
Mas matam-no porque na palavra se confunde ou se alimenta, o operário dos símbolos.
Mal se lhe toca e logo a palavra o envolve e com ela faz um corpo místico de luz e destino.
A palavra é o drama.
A luz.
A angústia em tinta apressada.
Por ela se desce aos infernos, com ela se exalta e se humilha.
É preciso olhar bem a força da palavra.
Vê-la por dentro.
Descobrir-lhe a luz e ainda e sempre a outra face que esconde.
Todavia, apesar de toda esta luz em que quase não reparamos, uma palavra não vem.
Procura-se e não vem.
Espera-se há muito e não há quem a escreva.
Ou quem a leia.
Ou quem a diga.
Procura-se uma palavra.
Uma palavra que destrua a solidão; que inaugure os gestos simples, os sorrisos claros, que espalhe entre os homens a esperança e a paz.
Procura-se uma palavra.
É pequenina.
É branca.
É um sorriso voltado para o ódio.
Uma pomba voltada para o Amor.
Procura-se uma palavra.
Tão breve que se confunde com um beijo que se dá sem se saber o porquê.
Ou com uma lágrima.
Ou com uma flor.

(Fonte: A Força da Palavra, Maria Rosa Colaço)

Osho, por que você sempre nos diz para sermos felizes, se, antes da iluminação, a pessoa tem de chegar a um pico de dor e angústia? Se eu nã...